segunda-feira, 24 de abril de 2017

Pessoalidades - 13 Reasons Why e as muitas facetas da depressão e do suicídio

Resultado de imagem para 13 reasons why hd still


Por muito tempo pensei em escrever sobre essa série. Não apenas pela popularidade, mas por ser um assunto que me atinge de forma bem pessoal. Vamos nos contextualizar primeiro: 13 Reasons Why é um seriado adolescente, baseado primeiramente em um livro que não tinha ouvido falar que conta a história de Clay, um jovem rapaz que recebe uma caixa de fitas cassete nas quais reside as razões que levaram sua colega de sala Hannah Baker ao suicídio. Poderia falar o quanto 50 minutos por episódio é algo realmente arrastado para um seriado com uma sinopse tão simples? Lógico. Podia falar sobre o efeito social no público da série? Logicamente. Poderia dar alternativas melhores para este seriado? Claro que sim. E farei tudo isso, mas antes, vamos analisar o conceito de hype. Já comum com as produções da Netflix, hype pode ser definido como uma antecipação onipresente por qualquer pedaço de mídia popular. Este fenômeno gera diferentes reações: pode atrair a atenção da pessoa para um produto ou pode repeli-la por conta da extrema saturação. 

Comecei o seriado sem expectativas e confesso, os dois primeiros episódios me pareceram bem competentes e entregavam o que eu esperava da série: uma abordagem madura sobre os problemas da juventude que possivelmente iria progredir para uma resolução satisfatória. Entrei no embalo e, apesar de ter gostado, conclui a minha opinião como um seriado mediano justamente por ser extremamente arrastado. Agora, passam-se umas semanas e eu paro de assistir no quarto episódio depois de ter pedido o interesse e mergulhado em uma maratona bem satisfatória de Big Little Lies. Isso me fez repensar sobre o seriado e mais contra argumentações começaram a surgir. Nesse momento pensei não ter nada de novo a adicionar a conversa. E possivelmente não tenho: profissionais da saúde, críticos estudados e uma boa parcela do público já deram a opinião sobre o que é o seriado, onde ele erra e acerta com todas as abordagens espertinhas já esgotadas. Criticar e aclamar a série tronou-se um viral. E sim, escrevo isso consciente de que posso apenas ser repetitivo, mas acredito que deveria expressar as razões pela série ter passado de indiferença ao meu ver para ranço e preocupação em uma questão de alguns episódios. É mais uma necessidade de me expressar do que uma análise (por isso faz parte da coluna Pessoalidades, e não uma lista ou resenha) Comecemos pelo o que deveria ser a temática principal da obra: a empatia.

Os únicos personagens que escapam do julgamento mais apurado do espectador são Clay e Hannah. O primeiro por ser o único personagem desenvolvido de forma justa e a segunda por ser o ponto de vista romantizado. O impacto positivo da série com relação à depressão severa é inegável, porém, ainda que cumpra seu intuito, a série se perde na execução e acaba se tornando tão rasa quanto qualquer série adolescente. Ela deixa de ser sobre o suicídio e se torna sobre casais e vilões. Logicamente, é difícil julgar o ponto de vista de uma pessoa depressiva. Os fatos sempre são distorcidos a seu favor, especificamente pelo seu estado de saúde. E aí reside o principal problema: o ponto de vista de Hannah e tratado como verdade absoluta, seu julgamento é tem um tom completamente condenatório e em nenhum momento a série considera possíveis distorções em suas histórias. A série sempre oscila entre verdades absolutas em flashbacks e uma trama de mistério em que o mote principal é saber a razão do protagonista estar entre as 13 razões pela morte de Hannah. O fio condutor é maniqueísta demais para desenvolver qualquer tipo de pessoa verdadeira dentro do universo da série. Ás vezes alguns personagens chegam a agir fora de seu personagem apenas para enfatizar a moral da história. Tudo gira em torno do impacto da morte de Hannah: ela, em morte, recebe muito mais atenção do que em vida, em uma fantasia bem nociva para quem realmente quer levar a série a sério e principalmente para pessoas com depressão.

Resultado de imagem para glee hd

Não nego a importância de seriados em períodos depressivos ou que abordem de forma crível o que ocorre. Voltemos a 2009, quando Glee era o seriado adolescente mais popular e o tema era abordado constantemente. Apesar de ter sido uma alternativa bem válida à séries como Gossip Girl, ao focar a história nos perdedores ao invés da elite fútil do colegial, o problema de tom do seriado era discrepante. O bullying, ao mesmo tempo que era condenado, era praticado pelos personagens constantemente, chegando ao ponto de Rachel, a protagonista, mandar uma aluna nova que cantava melhor eu ela para uma boca de fumo. Digamos que não era uma série que poderia ser elogiada pela sua... consistência. Ainda assim, acredito que a série foi muito importante para muita gente (diria que eu incluso) por oferecer um escapismo. Ela não fugia dos assuntos sérios que inevitavelmente iria abordar, mas não recorria a binarismos em seus estereótipos. Até mesmo a princesinha protagonista por uma ótica era uma pessoa desprezível, egocêntrica, narcisista e completamente sem noção; mas ao menos ela sofria as consequências de seus atos e passava por cima de suas dificuldades.

Resultado de imagem para skins  season 2

Skins, outra série popular no final dos anos 2000, abordou transtornos mentais desde a primeira temporada. Cassie, personagem da segunda geração, sofria bulimia, depressão e constantemente fugia de seus problemas. Ela tenta se matar duas vezes: uma tratada como piada no primeiro episódio e uma segunda vez no final da primeira temporada. O seriado recorria à hipérboles para tratar da juventude, exagerando na dose de humor escrachado, nudez e drogas. Todavia, foi o mais eficiente e até mesmo a mais realista com relação aos temas e personagens. Cassie foi extremamente bem desenvolvida em suas três temporadas: vemos sua parcela de culpa em sua ruína ao mesmo tempo que sentimos o impacto do ambiente em que ela está inserida, com pais ausentes, amigos nocivos, amores não correspondidos e o uso de drogas como fuga para seus problemas. E ainda que outros personagens tenham ações extremamente erradas com relação à ela, o foco narrativo não deixa de exercitar a empatia pelos seus problemas individuais. Vemos que Sid. seu afeto principal, é insensível e desligado, mas ao mesmo tempo a sua subordinação ao meio social e a sua insegurança causada por pais abusivos e sua amizade com Tony são mostradas.

Resultado de imagem para skins  season 6

Na segunda geração, Effy aos poucos entra em uma espiral depressiva, chegando ao pico no episódio da quarta temporada focado em Freddie, seu namorado. Esse período da série foi marcado por uma mudança extrema de abordagem entre uma temporada e outra: a terceira não se levava a sério o suficiente e a quarta se levava a sério demais. Porém, o dilema de Effy foi desenvolvido de forma crível e o impacto de seus problemas na vida dos personagens ia além dos rancores que um tinham do outro. Infelizmente, os dois últimos episódios da quarta são péssimos e a conclusão das tramas é pior ainda então passemos para a terceira geração. A quinta temporada foi marcada por uma diferenciação: os personagens deixaram de ser os mais populares da escola e passaram a ser os chamados underdogs, e os dilemas passaram a ser mais cotidianos e menos exagerados (ao menos para o resto do seriado). Isso seguiu-se na sexta, a temporada par da geração que, como de costume, é marcada pela morte de um personagem. Porém, ao invés de restringi-la ao final, ela ocorreu no início, sendo confirmada no segundo episódio. Os episódios que seguem tratam da culpa e a forma como todos do grupo de amigos reagiram à morte da personagem. E sim, alguns deles tiveram agência ativa na morte da garota, ainda que não houvesse nenhuma intenção. O que se seguiu foram episódios em que os personagens procuraram se libertar da culpa. Aos poucos, eles aceitam a perda como parte da vida, evidenciando que eles não precisam ficar marcados a vida toda pelas suas más escolhas e que sempre há um novo começo, De longe, foi a temporada mais madura da série como um todo.

Resultado de imagem para my mad fat diary


Ainda que tenham tratado do tema de forma mais eficiente que 13 Reasons Why, tanto Glee quanto Skins não tinham como intuito principal tratar da saúde mental de seus personagens. Glee passou a ser um veículo para vender e popularizar músicas e Skins sempre foi uma desconstrução extremista de seu gênero televisivo. Uma comparação mais justa seria com My Mad Fat Diary. O seriado é protagonizado por Rae, uma garota obesa com problemas psicológicos e sobrevivente de uma tentativa de suicídio. Sinceramente, para mim, é o seriado definitivo sobre problemas psicológicos por diversas razões. A primeira é saber conciliar o bom humor de uma trama adolescente com a realidade dos problemas mostrados em cena. Outro ponto importante: personagens complexos que complementam a temática do seriado. E o principal: é uma série que se preocupa em oferecer uma solução e estimula, desde o início, a procura de ajuda ao mesmo tempo que reconhece a resistência de quem sofre os mesmos problemas que a personagem. Em pouquíssimos momentos é mostrado algum personagem em 13 Reasons Why recorrendo seriamente à ajuda psicológica e, quando esta aparece, é apenas um detalhe em cena ao invés do recurso principal. Ao invés disso, a cena principal, que a série constrói toda a narrativa ao redor, não é a paz e sim a morte de sua protagonista.

A cena do suicídio de Hannah Baker é uma das coisas mais insensíveis e irresponsáveis que já assisti. É toda focada no desespero da personagem, coloca toda a agência de sua ação em outra pessoa, é romantizada a ponto de ter trilha sonora e o principal: é mostrada graficamente. Praticamente, dando uma instrução para quem sofre os mesmos problemas. Foi a cena que me fez passar da indiferença para a indignação e o consequente desprezo pela abordagem do seriado. 

Resultado de imagem para suicide room

Deixando claro: não é a cena em si que me perturba e sim como a série se desenvolve até então. Um filme norueguês chamado A Sala do Suicídio mostra a cena final da personagem como uma conclusão chocante e, sinceramente, me foi de muita ajuda em um período difícil. Foi uma cena que me fez repensar muitos comportamentos me levavam ao isolamento, rever muitas companhias e ideologias tóxicas e repeliu essa saída como algo válido no meu subconsciente, algo que a cena em que Hannah corta seus pulsos não faz. A intenção é emocionar e só é piorado pelo destino da personagem ser abordado como inevitável. A percepção deturpada da personagem acaba por estimular uma fantasia que, em alguns casos, pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Resultado de imagem para 13 reasons why hd still

Competente nos aspectos técnicos, 13 Reasons Why é uma série que cumpre seu papel: dialoga com o narcisismo adolescente ao mesmo tempo que aborda transtornos mentais, bullying e o impacto de pequenas ações na vida de outrem. Os atores são competentes e o texto, por si, não exatamente ruim. Mas a sua abordagem se baseia em apontar culpados o que, na situação retratada, é extremamente nocivo. O maniqueísmo da série deixa de tratar as personagens como pessoas e sim como depósito de dolo. E no final, ao invés de causar reflexão, acaba só tornando as pessoas mais insensíveis. Alguns dos mostrados como razões para a morte de Hannah tinham problemas válidos e evidentes, mas esses são deixados de lado, banalizados pelo foco narrativo ser o suicido de Hannah e pela curiosidade do espectador em saber onde reside a culpa em Clay. Ao invés de ser uma exploração válida do comportamento adolescente, acaba sendo uma visão niilista, insensível, manipulativa e irreal do assunto que busca abordar. Diria que é a versão em seriado de Scars to Your Beautiful, música da Alessia Cara, que apesar de ser competente como música pop e ter um belo videoclipe, acaba tropeçando em suas boas intenções e se torna um pedaço bem deprimente de música, que ao invés de levantar o astral, acaba entrando em detalhes desconfortáveis que acabam tornando a ouvida uma experiência bem estranha.

Tudo escrito nessa postagem é minha opinião. Se foi a série que te fez rever atitudes ou te ajudou a procurar ajuda, a sua visão é tão válida quanto a minha. Porém, é algo que precisava expressar depois de tanta opinião equivocada, tanta banalização e tanta abordagem ou condenativa ou voltada ao marketing.  Quando realmente pensei em recorrer ao destino da personagem em minha experiência, meu desespero maior era não deixar ninguém em vida pensando ser culpado, até mesmo quem teve agência direta e agressiva na minha infelicidade. E sim, me incomoda ver o suicídio ser romantizado, banalizado e abordoado como uma vingança por uma série popular. Me incomoda ver adolescentes infelizes pela Hannah ter se matado? Lógico que não, é ótimo e esperado que eles tenham empatia por ela. Agora que eles ficarem tristes pela morte dela por isso significar que ela não poderia ficar junto do Clay, com a série estimulando esse ponto de vista e ainda sugerindo a repetição de um ciclo nos minutos finais? Ah, isso sim me incomoda no nível de indignação. Essa é a fita de um seriado modinha que vai jazer enterrado no cemitério das boas intenções. Pois, ás vezes, como evidenciado pela própria personagem, elas são importantes. Mas infelizmente, não bastam. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário